O Hospital Pediátrico de Coimbra integra o consórcio internacional que investiga as causas genéticas do autismo. A equipa de investigadores provou que existem vários genes envolvidos no autismo e que estes podem ser diferentes,de caso para caso como explicou ao Diário de Coimbra a pediatra Guiomar Oliveira
Avanços na investigação sobre o genoma do autismo foram recentemente publicados na revista Nature. Que tipo de investigação é esta e como surge a participação da equipa do Hospital Pediátrico de Coimbra?
Guiomar Oliveira (GO) - Trata-se de um investigação internacional sobre a procura dos genes de susceptibilidade para o autismo, ou seja dos genes que possam ser a causa do autismo. O Hospital Pediátrico de Coimbra em parceria com o Instituto Gulbenkian de Ciência e o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge fazem esse tipo de investigação desde o final da década de 90 e apresentam trabalhos publicados nas revistas cientificas internacionais desde 2000. Uma vez que o consórcio internacional se formou em 2002, Portugal como país reconhecido na investigação desta área foi incluído neste grupo de investigadores líderes mundiais. Este consórcio internacional, o Autism Genome Project Consortium [Consórcio do Projecto do Genoma do Autismo] é constituído por 120 cientistas, provenientes de mais de 50 instituições, representando 11 países, sendo co-financiado por várias instituições internacionais (Autism Speaks, National Institutes of Health, Medical Research Council, Canadian Institutes of Health Research, Health Research Board Ireland, Genome Canada e Fundação Hilibrand).
Quais foram, resumidamente, as novas descobertas?
GO - Desde os anos 70 que a comunidade cientifica reconhece a origem genética do autismo. Especulava-se então que, numa percentagem elevada de casos, a mutação genética na base do autismo seria monogénica e a mesma, ou seja só provocada pela alteração de um gene, à semelhança do que acontece no síndrome de Rett ou no Síndrome de X frágil. Contudo os estudos do rastreio do genoma dos anos 80 e 90 vieram demonstrar que o autismo seria de causa poligénica, ou seja com muitos genes envolvidos em simultâneo e diferentes de caso para caso. O que este estudo publicado na Nature veio confirmar foi isso mesmo.
De que forma?
GO - Comparando o grupo de autismo (mil indivíduos) com um grupo saudável (1.300), o grupo com autismo apresentava mais frequentemente no seu genoma alterações submicroscópicas de delecções (perda de material genético) ou duplicações (ganho de material genético) de grandes fragmentos de ADN designadas como Copy Number Variants (CNVs), que provocam alterações em vários genes, sendo que a maioria destes genes está envolvida do desenvolvimento e funcionamento do cérebro. O estudo demonstrou também que as alterações genéticas verificadas são muito variadas (localizadas em diferentes cromossomas) e diferentes de indivíduo para indivíduo, que “per si” explicam menos de um por cento dos casos, mas que em conjunto explicarão uma maior percentagem deles. Algumas destas alterações são herdadas dos pais, outras das mães e em alguns casos surgiram pela primeira vez no indivíduo com autismo.
Que expectativas nos trazem para o futuro, seja ao nível de novas linhas de investigação seja mesmo no desenvolvimento de terapêuticas?
GO - Estes resultados demonstram que diferentes alterações genéticas dão origem ao mesmo síndrome clínico, neste caso o autismo, o que significa que haverá diferentes vias metabólicas/bioquímicas disfuncionais que se interligam para dar as alterações neurocomportamentais e cognitivas que caracterizam o autismo. São muito importantes estes achados porque, percebendo os genes que estão envolvidos, poderemos conhecer melhor a sua função e depois intervir farmacologicamente de um modo atempado no “nó” disfuncional, evitando assim um efeito em cascata anómalo do desenvolvimento neurológico.
O Hospital Pediátrico tem desenvolvido um trabalho pioneiro na área do autismo...
GO - O Hospital Pediátrico Coimbra criou a primeira consulta de autismo no país em 1992. Em parceria com a Direcção Regional da Educação do Centro (DREC), no ano lectivo 1996/97, abriu a primeira Unidade de Ensino Estruturado para crianças com autismo, sendo que hoje já existem unidades em todas as regiões e estão contempladas na lei da educação especial de 3/2008, usando como modelo Coimbra. Actualmente, no Hospital Pediátrico, em parceria com a DREC, funciona uma unidade de autismo com características multidisciplinares (médicos, professores, psicólogos, terapeutas, técnicos de serviço social e enfermeiras). A unidade responde a cerca de 1.800 consultas por ano (10 por cento das quais são primeiras consultas) e segue mais de mil utentes, metade residem fora da região Centro.
Qual a incidência estimada de perturbações do espectro autista no nosso país?
GO - Uma em cada mil crianças de idade escolar sofre de autismo tal como demonstrado no estudo de prevalência realizado em 2000 em Portugal, justamente pela equipa de Coimbra (Epidemiology of autism spectrum disorder in Portugal, Guiomar Oliveira e al, Developmental Medicine & Child Neurology 2007)
Quais as principais preocupações dos profissionais de saúde nesta área?
GO – Preocupa-nos a falta de recursos para responder às exigentes e especificas necessidades de intervenção a nível escolar e depois, mais tarde, de protecção social.
Transtorno do espectro do autismo: · Transtorno de Asperger – Autismo de “Alto Funcionamento” (Síndrome de Asperger) · Transtorno Invasivo do Desenvolvimento Sem Outra Especificação (PDD-NOS)/ Autismo Atípico (outras condições com características semelhantes ao autismo)
"Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza". (Boaventura de Souza Santos)
terça-feira, 29 de junho de 2010
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Alterações no número de cópias de genes podem explicar autismo
Duplicações ou deleções de parte do genoma podem estar por trás de parte dos casos de autismo. Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista Science.
Esse tipo de mudanças no genoma pode alterar o número de cópias de um determinado gene. Variações no número de cópias de um gene são dez vezes maiores em crianças autistas que em outras crianças.
A equipe do Laboratório Cold Spring Harbor, em Long Island, Nova York, liderada por Jonathan Sebat, examinou 118 famílias com uma criança autista e 99 famílias com nenhuma criança autista.
Do grupo de crianças autistas, 10% tinham variantes no número de cópias de genes que não apareciam nos genomas de seus pais, contra 1% no grupo de crianças não autistas.
A variação no número de cópias afeta genes diferentes em cada criança autista. Isso sugere que o autismo não é causado por um único defeito genético.
Esse tipo de mudanças no genoma pode alterar o número de cópias de um determinado gene. Variações no número de cópias de um gene são dez vezes maiores em crianças autistas que em outras crianças.
A equipe do Laboratório Cold Spring Harbor, em Long Island, Nova York, liderada por Jonathan Sebat, examinou 118 famílias com uma criança autista e 99 famílias com nenhuma criança autista.
Do grupo de crianças autistas, 10% tinham variantes no número de cópias de genes que não apareciam nos genomas de seus pais, contra 1% no grupo de crianças não autistas.
A variação no número de cópias afeta genes diferentes em cada criança autista. Isso sugere que o autismo não é causado por um único defeito genético.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Descobertos novos genes raros do autismo
Projecto internacional, que integra investigadores edoentes portugueses, abre portas a diagnóstico precoce
Ontem
GINA PEREIRA
Novos genes de susceptibilidade para o autismo e variantes raras do genoma foram identificados em doentes autistas, muitos deles encontrados apenas no indivíduo e não nos pais. Os resultados constam de um estudo internacional, em que Portugal participa.
É o maior estudo jamais realizado sobre autismo e envolve cerca de mil doentes com perturbações do espectro do autismo, entre eles cerca de 300 crianças portuguesas que são seguidas no Hospital Pediátrico de Coimbra. Os novos resultados do Autism Genome Project (AGP), consórcio internacional criado em 2002 e constituído por 120 cientistas provenientes de 11 países, entre os quais Portugal, são hoje publicados na revista científica "Nature". E abrem a possibilidade de, no futuro, poder haver um diagnóstico precoce molecular do autismo.
O que os investigadores conseguiram agora identificar foi que os pacientes com autismo tendem a possuir no seu genoma mais alterações submicroscópicas - designadas Copy Number Variants (CNV's) - do que os indivíduos controlo. E que muitas destas alterações no ADN não são herdadas dos pais, mas correspondem a alterações dos cromossomas do próprio indivíduo, como acontece na Trissomia 21. As causas para o aparecimento dos CNV's não são ainda bem conhecidas, mas verifica-se que podem incluir entre um a 20 genes, parte dos quais já se sabe serem importantes no autismo ou na deficiência mental.
Outra das descobertas dos investigadores é que, enquanto isoladamente cada uma destas alterações é rara - isto é, responsável por uma fracção diminuta de casos de autismo - no seu conjunto estas variantes poderão levar à doença numa grande percentagem dos indivíduos afectados. O que acentua a convicção dos cientistas de que "existe uma enorme variabilidade genética na base do autismo", disse, ao JN, Astrid Vicente, investigadora-principal da Unidade de Investigação e Desenvolvimento de Promoção da Saúde e Doenças Crónicas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que participa neste projecto.
Num "futuro longínquo", o que estes resultados podem vir a permitir é que passe a existir um teste molecular que permita fazer um diagnóstico mais precoce do autismo, visto que actualmente o único diagnóstico que existe é comportamental. Por norma, os pais têm de esperar até aos dois/três anos para terem a certeza de que os comportamentos dos filhos correspondem a um diagnóstico de autismo.
Guiomar Oliveira, médica do Hospital Pediátrico de Coimbra que também participa no estudo, admite que esse diagnóstico possa vir a permitir "tirar dúvidas mais precocemente", mas o que aponta como mais relevante neste estudo é o facto de apontar "causas até então desconhecidas". "É um avanço enorme", diz, garantindo que "todos os dias" tem estado a encontrar respostas para casos de meninos cujo autismo não tinha qualquer explicação, o que acontecia em 80% dos casos.
Ontem
GINA PEREIRA
Novos genes de susceptibilidade para o autismo e variantes raras do genoma foram identificados em doentes autistas, muitos deles encontrados apenas no indivíduo e não nos pais. Os resultados constam de um estudo internacional, em que Portugal participa.
É o maior estudo jamais realizado sobre autismo e envolve cerca de mil doentes com perturbações do espectro do autismo, entre eles cerca de 300 crianças portuguesas que são seguidas no Hospital Pediátrico de Coimbra. Os novos resultados do Autism Genome Project (AGP), consórcio internacional criado em 2002 e constituído por 120 cientistas provenientes de 11 países, entre os quais Portugal, são hoje publicados na revista científica "Nature". E abrem a possibilidade de, no futuro, poder haver um diagnóstico precoce molecular do autismo.
O que os investigadores conseguiram agora identificar foi que os pacientes com autismo tendem a possuir no seu genoma mais alterações submicroscópicas - designadas Copy Number Variants (CNV's) - do que os indivíduos controlo. E que muitas destas alterações no ADN não são herdadas dos pais, mas correspondem a alterações dos cromossomas do próprio indivíduo, como acontece na Trissomia 21. As causas para o aparecimento dos CNV's não são ainda bem conhecidas, mas verifica-se que podem incluir entre um a 20 genes, parte dos quais já se sabe serem importantes no autismo ou na deficiência mental.
Outra das descobertas dos investigadores é que, enquanto isoladamente cada uma destas alterações é rara - isto é, responsável por uma fracção diminuta de casos de autismo - no seu conjunto estas variantes poderão levar à doença numa grande percentagem dos indivíduos afectados. O que acentua a convicção dos cientistas de que "existe uma enorme variabilidade genética na base do autismo", disse, ao JN, Astrid Vicente, investigadora-principal da Unidade de Investigação e Desenvolvimento de Promoção da Saúde e Doenças Crónicas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que participa neste projecto.
Num "futuro longínquo", o que estes resultados podem vir a permitir é que passe a existir um teste molecular que permita fazer um diagnóstico mais precoce do autismo, visto que actualmente o único diagnóstico que existe é comportamental. Por norma, os pais têm de esperar até aos dois/três anos para terem a certeza de que os comportamentos dos filhos correspondem a um diagnóstico de autismo.
Guiomar Oliveira, médica do Hospital Pediátrico de Coimbra que também participa no estudo, admite que esse diagnóstico possa vir a permitir "tirar dúvidas mais precocemente", mas o que aponta como mais relevante neste estudo é o facto de apontar "causas até então desconhecidas". "É um avanço enorme", diz, garantindo que "todos os dias" tem estado a encontrar respostas para casos de meninos cujo autismo não tinha qualquer explicação, o que acontecia em 80% dos casos.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Pesquisadores testam medicamentos para combater sintomas de autismo
NEW SCIENTIST
Pesquisadores estão desenvolvendo novas drogas para melhorar as dificuldades sociais de autistas e de outras pessoas com dificuldades de aprendizado.
As únicas drogas prescritas no momento para autistas agem na redução da agressão e ansiedade, mas não atacam as causas do problema. As novas drogas, no entanto, poderiam atacar o cerne do problema.
"As pessoas podem aprender mais, a falar melhor, a interagir com outras pessoas e ser mais comunicativas", diz Randall Carpenter da empresa Seaside Therapeutics em Cambridge, Massachusetts (EUA), que está testando uma droga dessa nova classe.
O entusiasmo é compartilhado por Geraldine Dawson, cientista-chefe da instituição beneficente Autism Speaks e psiquiatra na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hills (EUA). "Pela primeira vez, estamos vendo medicamentos que poderiam lidar com sintomas essenciais do autismo."
O teste da Seaside Therapeutics é destinado a pessoas afetadas pela síndrome do X frágil, doença genética associada com o autismo. Pessoas com a síndrome possuem uma mutação em um gene envolvido no fortalecimento de conexões cerebrais ligadas a experiências salientes. Conexões mais fortes permitem que se consiga distinguir eventos relevantes de eventos irrelevantes (ou seja, permite o aprendizado). Mas a mutação no gene dificulta esse processo.
Uma equipe de pesquisadores da Seaside Therapeutics, liderado por Carpenter, está testando uma droga chamada arbaclofen que parece ser capaz de reverter os efeitos dessa mutação.
Carpenter apresentou os resultados em um encontro de pesquisadores da área na Filadélfia no dia 23 de maio.
Os resultados do trabalho sugerem que a nova droga pode melhorar habilidades sociais de pessoas com a síndrome do X frágil e autismo, incluindo melhora na comunicação e sociabilidade em geral e menos episódios de acesso de raiva.
Outra substância que pode ajudar no tratamento é o hormônio ocitocina. Já se sabe que a substância parece conectar sensações de prazer ao contato social. Por causa disso, diversos grupos de pesquisa estão usando a ocitocina em testes para reduzir os sintomas do autismo.
No encontro da Filadélfia, uma equipe liderada por Evdokia Anagnostou, neurologista infantil do Instituto de Pesquisa Bloorview em Toronto, Canadá, apresentou um trabalho mostrando que a administração de duas doses diárias de ocitocina por seis dias aumenta a capacidade de reconhecer emoções e o funcionamento social de outras pessoas.
Segundo a psicóloga Uta Frith, do University College London, na Inglaterra, esse tipo de abordagem química no tratamento de autismo é algo ainda muito novo. Para Frith, seria muito bom que drogas pudessem atacar as causas da doença, mas enquanto elas não vêm, intervenções comportamentais ainda são uma das melhores alternativas.
Pesquisadores estão desenvolvendo novas drogas para melhorar as dificuldades sociais de autistas e de outras pessoas com dificuldades de aprendizado.
As únicas drogas prescritas no momento para autistas agem na redução da agressão e ansiedade, mas não atacam as causas do problema. As novas drogas, no entanto, poderiam atacar o cerne do problema.
"As pessoas podem aprender mais, a falar melhor, a interagir com outras pessoas e ser mais comunicativas", diz Randall Carpenter da empresa Seaside Therapeutics em Cambridge, Massachusetts (EUA), que está testando uma droga dessa nova classe.
O entusiasmo é compartilhado por Geraldine Dawson, cientista-chefe da instituição beneficente Autism Speaks e psiquiatra na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hills (EUA). "Pela primeira vez, estamos vendo medicamentos que poderiam lidar com sintomas essenciais do autismo."
O teste da Seaside Therapeutics é destinado a pessoas afetadas pela síndrome do X frágil, doença genética associada com o autismo. Pessoas com a síndrome possuem uma mutação em um gene envolvido no fortalecimento de conexões cerebrais ligadas a experiências salientes. Conexões mais fortes permitem que se consiga distinguir eventos relevantes de eventos irrelevantes (ou seja, permite o aprendizado). Mas a mutação no gene dificulta esse processo.
Uma equipe de pesquisadores da Seaside Therapeutics, liderado por Carpenter, está testando uma droga chamada arbaclofen que parece ser capaz de reverter os efeitos dessa mutação.
Carpenter apresentou os resultados em um encontro de pesquisadores da área na Filadélfia no dia 23 de maio.
Os resultados do trabalho sugerem que a nova droga pode melhorar habilidades sociais de pessoas com a síndrome do X frágil e autismo, incluindo melhora na comunicação e sociabilidade em geral e menos episódios de acesso de raiva.
Outra substância que pode ajudar no tratamento é o hormônio ocitocina. Já se sabe que a substância parece conectar sensações de prazer ao contato social. Por causa disso, diversos grupos de pesquisa estão usando a ocitocina em testes para reduzir os sintomas do autismo.
No encontro da Filadélfia, uma equipe liderada por Evdokia Anagnostou, neurologista infantil do Instituto de Pesquisa Bloorview em Toronto, Canadá, apresentou um trabalho mostrando que a administração de duas doses diárias de ocitocina por seis dias aumenta a capacidade de reconhecer emoções e o funcionamento social de outras pessoas.
Segundo a psicóloga Uta Frith, do University College London, na Inglaterra, esse tipo de abordagem química no tratamento de autismo é algo ainda muito novo. Para Frith, seria muito bom que drogas pudessem atacar as causas da doença, mas enquanto elas não vêm, intervenções comportamentais ainda são uma das melhores alternativas.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Tratamento de infertilidade pode causar autismo?
Estudos identificaram maior incidência de autismo em mulheres que fizeram tratamentos para engravidar ou fertilização in vitro.
Além disso, os estudos mostraram que, quanto mais tempo a mulher fica exposta o tratamento para infertilidade, maiores as chances de que seu filho tenha autismo. Um segundo estudo apresentado na conferência por um grupo de Israel achou uma associação entre o risco de autismo e a fertilização in vitro, que também envolve o uso de remédios que estimulam a ovulação. No entanto, esses resultados trazem mais perguntas do que respostas.
O estudo de Harvard envolveu dados de quase 4 mil mulheres. Delas, 111 afirmaram ter um filho com autismo. No entanto, os dados foram baseados em questionários preenchidos pelas próprias mulheres, em vez de registros clínicos, então não havia como confirmar o tempo de tratamento para infertilidade ou o diagnóstico de autismo. Os pesquisadores nem tinham acesso às informações se a criança havia nascido prematuramente, ou se eram gêmeos ou trigêmeos, ou se nasceram com baixo peso, fatores comuns entre mulheres que fazem tratamento.
“O autismo está ligado à prematuridade e não ao tratamento”, diz o ginecologista obstetra especialista em reprodução humana Flávio Garcia de Oliveira, pai de Gabriel, Manoela, Pedro, Lucas e Fernanda.
O relatório israelense sobre a fertilização in vitro também é intrigante. O estudo avaliou 564 crianças com autismo que compareceram a um centro de autismo para uma avaliação profunda. Foi constatado que 10,2% das crianças eram resultado de fertilização in vitro, número muito mais alto do que a taxa da população de Israel, que é 3,5%. Mas ainda não é claro se o risco maior de autismo nesses casos pode ser resultado de fatores como a idade da mãe, o parto prematuro ou o nascimento de múltiplos.
Contradição
Há três anos, foi publicada uma pesquisa do departamento de epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Aarhus, da Dinamarca, que dizia exatamente o contrário. A pesquisa chegou à conclusão que crianças nascidas por meio de reprodução assistida tem menos chances de desenvolver autismo. As causas não ficaram claras, mas pode haver uma relação com a saúde da mãe antes e durante a gestação.
Além disso, os estudos mostraram que, quanto mais tempo a mulher fica exposta o tratamento para infertilidade, maiores as chances de que seu filho tenha autismo. Um segundo estudo apresentado na conferência por um grupo de Israel achou uma associação entre o risco de autismo e a fertilização in vitro, que também envolve o uso de remédios que estimulam a ovulação. No entanto, esses resultados trazem mais perguntas do que respostas.
O estudo de Harvard envolveu dados de quase 4 mil mulheres. Delas, 111 afirmaram ter um filho com autismo. No entanto, os dados foram baseados em questionários preenchidos pelas próprias mulheres, em vez de registros clínicos, então não havia como confirmar o tempo de tratamento para infertilidade ou o diagnóstico de autismo. Os pesquisadores nem tinham acesso às informações se a criança havia nascido prematuramente, ou se eram gêmeos ou trigêmeos, ou se nasceram com baixo peso, fatores comuns entre mulheres que fazem tratamento.
“O autismo está ligado à prematuridade e não ao tratamento”, diz o ginecologista obstetra especialista em reprodução humana Flávio Garcia de Oliveira, pai de Gabriel, Manoela, Pedro, Lucas e Fernanda.
O relatório israelense sobre a fertilização in vitro também é intrigante. O estudo avaliou 564 crianças com autismo que compareceram a um centro de autismo para uma avaliação profunda. Foi constatado que 10,2% das crianças eram resultado de fertilização in vitro, número muito mais alto do que a taxa da população de Israel, que é 3,5%. Mas ainda não é claro se o risco maior de autismo nesses casos pode ser resultado de fatores como a idade da mãe, o parto prematuro ou o nascimento de múltiplos.
Contradição
Há três anos, foi publicada uma pesquisa do departamento de epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Aarhus, da Dinamarca, que dizia exatamente o contrário. A pesquisa chegou à conclusão que crianças nascidas por meio de reprodução assistida tem menos chances de desenvolver autismo. As causas não ficaram claras, mas pode haver uma relação com a saúde da mãe antes e durante a gestação.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Salas estruturadas nas escolas ajudam crianças autistas - Portugal - DN
Salas estruturadas nas escolas ajudam crianças autistas - Portugal - DN
Martim tem nove anos e é autista. Uma em cada mil crianças em Portugal sofre desta síndroma, estimam os especialistas. Porém, a mãe de Martim quer que o filho seja mais que uma simples estatística e luta para que seja cada vez mais autónomo. A criança frequenta uma das 187 unidades de apoio especializado para estes alunos, dividindo o tempo com uma turma "normal" na escola no Alto de Santo Amaro, em Lisboa.
É numa sala estruturada, "estupidamente organizada" (como diz com humor a mãe, Isabel Pedroso), que Martim aprende com a professora Nélia Martins as funções básicas de interacção social e a conquista de autonomia.
Martim apenas diz algumas palavras, "mas percebe tudo". Um dos objectivos é aprender a comunicar, algo que faz através de associações. "Tem um livro com imagens dos alimentos, da casa de banho, símbolos dos jogos e outras coisas. Assim, ele diz-me o que quer fazer. Ganhou iniciativa", salienta. Aos nove anos, ainda não aprendeu o "socialmente correcto". "Vai ao supermercado e começa a arrancar as etiquetas de promoções que encontra", contou. Mas Isabel diz que ele fez progressos. "Ele era muito impaciente quando tinha de esperar para comer. Agora já sabe sentar-se à mesa, esperar, ir buscar o prato..."
Isabel sabe que o filho terá sempre uma autonomia limitada, mas nem todos os casos são assim. A professora Nélia Martins diz ter um aluno que é muito evoluído e que se continuar com um bom trabalho poderá até ter um emprego: "Ainda que terá sempre de ser acompanhado."
Mas independentemente do grau de autismo, há pontos em comum nas salas estruturadas. Quer ao nível da organização quer da rotina de aprendizagem, em que lembram salas do pré-escolar.
"Têm os espaços delineados com fitas de cor. Há a área de grupo, da música, para brincar, área do aprender e do trabalho, entre outros espaços", explica Inês Larcher, terapeuta da fala da Associação de Pais e Amigos da Criança Deficiente Mental (APPACDM) de Lisboa, formadora no método.
É na área de aprender que os alunos começam a dar os primeiros passos rumo aos objectivos. Estão apenas acompanhados pela professora e só quando esta considerar que já adquiriu os conhecimentos, o aluno passa para a de trabalho, onde terá de fazer o que aprendeu sozinho: o início da autonomia ambicionada.
"Estas crianças eram vistas como não educáveis. Com esta metodologia percebeu-se que com uma estrutura rígida é possível mais tarde o autista ganhar autonomia", disse ao DN. E como diz Nélia Martins "são os miúdos das mil vezes", ou seja, são precisas muitas repetições para se concretizar um objectivo.
"Comer, vestir, ir à casa de banho, as relações com colegas e adultos são algumas das aprendizagens por que todos passam", afirma a professora. Depois há que aprender a ler os números, emparelhar - como juntar 1+1 - e resolver pequenos problemas de matemática, entre outros exemplos. Nélia Martins explica que para todos os alunos autistas são estabelecidos objectivos, depois de analisado clinicamente, que vão sendo alterados lentamente durante a evolução.
Os autistas não reagem bem a mudanças. Precisam de um horário rígido, com tudo organizado: "Se, por exemplo, vai faltar a terapeuta da fala, eu tenho de antecipar essa situação. Não lhe posso dizer que vai ter a sessão e depois mudar, a reacção pode ser má a nível comportamental."
O ideal para estes alunos é conseguirem estar o maior tempo possível com a turma "normal", e as salas estruturadas começarem a serem vistas como "explicações". Martim ainda passa grande parte do dia na sala estruturada, mas há alunos que já inverteram a situação.
Estas unidades estruturadas têm a metodologia TEACCH, que foi desenvolvida nos anos 70 pelo norte-americano Eric Shopler e que é cada vez mais usada. Actualmente, são mais as salas estruturadas no 1.º ciclo. Porém, começaram a surgir as de 2.º e 3.º para que as crianças continuem o trabalho.
Martim tem nove anos e é autista. Uma em cada mil crianças em Portugal sofre desta síndroma, estimam os especialistas. Porém, a mãe de Martim quer que o filho seja mais que uma simples estatística e luta para que seja cada vez mais autónomo. A criança frequenta uma das 187 unidades de apoio especializado para estes alunos, dividindo o tempo com uma turma "normal" na escola no Alto de Santo Amaro, em Lisboa.
É numa sala estruturada, "estupidamente organizada" (como diz com humor a mãe, Isabel Pedroso), que Martim aprende com a professora Nélia Martins as funções básicas de interacção social e a conquista de autonomia.
Martim apenas diz algumas palavras, "mas percebe tudo". Um dos objectivos é aprender a comunicar, algo que faz através de associações. "Tem um livro com imagens dos alimentos, da casa de banho, símbolos dos jogos e outras coisas. Assim, ele diz-me o que quer fazer. Ganhou iniciativa", salienta. Aos nove anos, ainda não aprendeu o "socialmente correcto". "Vai ao supermercado e começa a arrancar as etiquetas de promoções que encontra", contou. Mas Isabel diz que ele fez progressos. "Ele era muito impaciente quando tinha de esperar para comer. Agora já sabe sentar-se à mesa, esperar, ir buscar o prato..."
Isabel sabe que o filho terá sempre uma autonomia limitada, mas nem todos os casos são assim. A professora Nélia Martins diz ter um aluno que é muito evoluído e que se continuar com um bom trabalho poderá até ter um emprego: "Ainda que terá sempre de ser acompanhado."
Mas independentemente do grau de autismo, há pontos em comum nas salas estruturadas. Quer ao nível da organização quer da rotina de aprendizagem, em que lembram salas do pré-escolar.
"Têm os espaços delineados com fitas de cor. Há a área de grupo, da música, para brincar, área do aprender e do trabalho, entre outros espaços", explica Inês Larcher, terapeuta da fala da Associação de Pais e Amigos da Criança Deficiente Mental (APPACDM) de Lisboa, formadora no método.
É na área de aprender que os alunos começam a dar os primeiros passos rumo aos objectivos. Estão apenas acompanhados pela professora e só quando esta considerar que já adquiriu os conhecimentos, o aluno passa para a de trabalho, onde terá de fazer o que aprendeu sozinho: o início da autonomia ambicionada.
"Estas crianças eram vistas como não educáveis. Com esta metodologia percebeu-se que com uma estrutura rígida é possível mais tarde o autista ganhar autonomia", disse ao DN. E como diz Nélia Martins "são os miúdos das mil vezes", ou seja, são precisas muitas repetições para se concretizar um objectivo.
"Comer, vestir, ir à casa de banho, as relações com colegas e adultos são algumas das aprendizagens por que todos passam", afirma a professora. Depois há que aprender a ler os números, emparelhar - como juntar 1+1 - e resolver pequenos problemas de matemática, entre outros exemplos. Nélia Martins explica que para todos os alunos autistas são estabelecidos objectivos, depois de analisado clinicamente, que vão sendo alterados lentamente durante a evolução.
Os autistas não reagem bem a mudanças. Precisam de um horário rígido, com tudo organizado: "Se, por exemplo, vai faltar a terapeuta da fala, eu tenho de antecipar essa situação. Não lhe posso dizer que vai ter a sessão e depois mudar, a reacção pode ser má a nível comportamental."
O ideal para estes alunos é conseguirem estar o maior tempo possível com a turma "normal", e as salas estruturadas começarem a serem vistas como "explicações". Martim ainda passa grande parte do dia na sala estruturada, mas há alunos que já inverteram a situação.
Estas unidades estruturadas têm a metodologia TEACCH, que foi desenvolvida nos anos 70 pelo norte-americano Eric Shopler e que é cada vez mais usada. Actualmente, são mais as salas estruturadas no 1.º ciclo. Porém, começaram a surgir as de 2.º e 3.º para que as crianças continuem o trabalho.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Nova promessa em medicamento para síndrome de retardamento
Qua, 19 Mai, 04h59
Um medicamento experimental obteve sucesso num pequeno experimento clínico, ao conseguir o que os pesquisadores chamaram de melhoras substanciais nos comportamentos associados ao retardamento e autismo em pessoas com síndrome do X frágil, a causa hereditária mais comum dessas deficiências mentais.
Os surpreendentes resultados, divulgados numa recente entrevista pela Novartis, a gigante farmacêutica suíça produtora do medicamento, surgiram de três décadas de uma detalhada pesquisa genética, progressos na compreensão do funcionamento do cérebro, o apoio de famílias que se recusaram a desistir e um encontro fortuito de dois cientistas que apareceram, por engano, na mesma conferência.
"Apenas três anos atrás, eu teria dito que o retardamento mental é uma incapacidade que precisa de reabilitação, e não uma doença que precisa de medicação", afirmou o Dr.
Thomas R.
Insel, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que foi informado dos resultados da Novartis.
"Quaisquer resultados positivos de experimentos clínicos serão incrivelmente promissores".
O Dr.
Mark C.
Fishman, presidente do Instituto Novartis de Pesquisa BioMédica, alertou contra o otimismo exagerado.
O experimento envolveu somente algumas dúzias de pacientes, sendo que apenas alguns se beneficiaram do tratamento.
O remédio está provavelmente a anos de ser disponibilizado comercialmente e pode fracassar em outros experimentos clínicos, disse ele.
"Estávamos relutantes em tornar isso público, pois ainda precisamos realizar mais experimentos, fazê-los corretamente e de maneira mais ampla", disse Fishman.
"Mas nosso grupo está bem satisfeito com os dados".
Se autenticados em experimentos maiores, os resultados podem também se tornar um marco no campo da pesquisa sobre o autismo, já que os cientistas especularam que o remédio pode ajudar alguns pacientes com autismo não causado pelo X frágil - talvez se tornando o primeiro medicamento a agir sobre os sintomas principais do autismo.
Uma criança em cada 5 mil nasce com síndrome do X frágil, com efeitos mentais se estendendo de dificuldades leves no aprendizado a um retardamento tão profundo que os pacientes não falam, e efeitos físicos que incluem rostos alongados, mandíbulas proeminentes, orelhas grandes e testículos aumentados.
A síndrome afeta principalmente meninos e recebeu seu nome porque, num microscópio, um braço do cromossomo X parece quase quebrado, com parte dele pendurada por um fio.
O gene para o X frágil foi descoberto em 1991.
Desde então, trabalhos descobriram que pacientes com X frágil parecem sofrer uma sobrecarga de ruído sináptico não-verificado - sinapses sendo as junções entre neurônios.
O remédio da Novartis, e outros como ele, pretendem reduzir o volume desse ruído - para que a formação de memória e o pensamento de alto nível possam ocorrer, permitindo que as crianças se desenvolvam normalmente.
O experimento da Novartis, que teve início na Europa em 2008 e cuja análise de dados foi concluída este ano, foi breve demais para observar efeitos sobre a inteligência básica.
Em vez disso, os pesquisadores mediram uma variação de comportamentos anormais - como hiperatividade, movimentos repetitivos, isolamento social e discurso inapropriado.
Eles ministraram o medicamento a um grupo de pacientes e placebo ao outro, trocando os tratamentos após algumas semanas; tanto médicos quanto pacientes não sabiam qual pílula era qual.
Os resultados do experimento estavam um tanto confusos, até os cientistas da Novartis perceberem que os pacientes com um traço biológico característico não-divulgado melhoravam muito mais do que os outros.
"A conclusão é que apresentamos nítidas melhoras em comportamento", disse Fishman.
Sabendo dos resultados, dois pais de um paciente de X frágil ficaram eufóricos.
"Trabalhamos para isso, é isso que esperamos desde que nosso filho foi diagnosticado com X frágil, dezessete anos atrás", disse Katie Clapp, presidente e co-fundadora da Fundação de Pesquisa FRAXA, uma organização sem fins lucrativos dedicada a custear pesquisas sobre o X frágil.
"Essa pode ser a chave para solucionar o mistério do autismo e outras doenças do desenvolvimento".
Geraldine Dawson, diretora de ciência da Autism Speaks, a maior organização defensora de autismo no mundo, disse que um corpo de pesquisa cada vez maior sugere que as muitas causas genéticas do autismo parecem todas afetar as sinapses, indicando que o tratamento para uma forma da doença pode ajudar outras.
"O fato instigante desses resultados é que nós esperamos que esses mesmos medicamentos possam ter benefícios positivos similares para pessoas com autismo que não possuem a síndrome do X frágil", disse Dawson.
Entre 10 e 15% dos casos de autismo resultam da síndrome do X frágil ou outro defeito genético conhecido.
Enquanto o X frágil é a causa hereditária mais comum para retardamento mental, a síndrome de Down - que também causa retardamento - é mais comum, mas não é hereditária.
Os resultados do experimento da Novartis não foram publicados ou revisados por pares, e por razões comerciais Fishman se recusou a divulgar muitos detalhes.
O Dr.
Luca Santarelli, chefe de neurociência da Roche, confirmou que a empresa está em meio a testes de um medicamento similar, em pacientes com X frágil, em quatro lugares dos Estados Unidos.
"Até agora nós estamos gostando do que vemos", disse Santarelli em sua única caracterização do estudo.
Uma razão para a euforia envolvendo o experimento da Novartis é que ele foi visto como um teste especialmente difícil dos efeitos do medicamento.
Por motivos éticos, a Novartis testou a droga somente em adultos.
Porém, a empresa e pesquisadores de fora acreditam que tais compostos podem se mostrar mais eficientes em crianças jovens, cujos cérebros têm probabilidades muito maiores de responder rapidamente quando as barreiras ao aprendizado são removidas.
"Este é talvez a descoberta terapêutica mais promissora para uma doença comportamental baseada em genes", afirmou o Dr.
Edward M.
Scolnick, ex-chefe de pesquisa da Merck e atual diretor do Centro Stanley de Pesquisa Psiquiátrica no Broad Institute, em Harvard, e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Scolnick não viu os resultados do experimento da Novartis, mas ficou sabendo deles e concluiu que, se as drogas funcionam no X frágil, "não há como dizer que elas não funcionarão em alguns casos de doenças num espectro mais amplo de autismo".
As raízes para os resultados da Novartis começaram em 1982, quando Stephen T.
Warren, então um estudante de graduação em genética da Universidade Estadual de Michigan, procurava um emprego e algo o que pesquisar.
Um amigo lhe contou a respeito do X frágil e, com a mesma reflexão que utilizava para escolher um livro para um voo longo, ele decidiu que queria encontrar o gene que causava a síndrome.
"Eu não fazia ideia do quanto isso seria difícil", contou Warren.
Nove anos depois, Warren, então na Universidade Emory, fazia parte de uma equipe internacional que venceu uma concorrida competição isolando o gene.
A descoberta foi noticiada em primeiras páginas do mundo todo, e especialistas previram que amplos testes e terapias fetais estavam à vista.
As previsões foram prematuras, pois, como a maior parte das pesquisas genéticas, descobrir como o gene defeituoso causava a doença era muito mais difícil do que se havia imaginado, e exigia múltiplos saltos em neurologia e biologia.
E mesmo com isso, grande parte permanecia um mistério.
O X frágil é causado por um gaguejar genético, no qual uma parte do gene é repetida como um disco riscado.
Em cada uma das gerações subsequentes, o número de repetições tende a aumentar.
Então, se uma mãe possui 10 repetições, seu filho pode ter 11 ou 12.
Por razões ainda não bem compreendidas, entretanto, esse processo de amplificação repetida pode ficar subitamente desordenado.
Assim, mães que possuem 55 ou mais repetições tendem a ter filhos com centenas.
Em qualquer pessoa com 200 ou mais repetições, o corpo desliga o gene.
Como os genes são usados para produzir proteínas, essa paralisação genética significa que a proteína codificada nunca será produzida.
A ausência dessa proteína nas células causa os efeitos de amplo alcance da síndrome do X frágil.
Aqueles com 55 a 200 repetições são considerados portadores, e pesquisas recentes mostram que eles podem apresentar graves declínios neurológicos com a idade - algo como Alzheimer e Parkinson.
Após encontrar o gene fundamental de uma doença, muitos geneticistas teriam partido para outros tópicos de pesquisa.
Warren, porém, conheceu crianças afetadas e seus pais.
Em vez de fotos de família, a mesa de Warren exibe uma foto emoldurada de um cromossomo X frágil.
"Eu não poderia dizer a alguém como Katie Clapp que não iríamos mais seguir com essa pesquisa", disse ele.
Assim, ele continuou.
Anos de trabalho, por ele e por outros, mostraram que a proteína faltando naqueles com X frágil normalmente parece agir como um tipo de guarda de trânsito em sinapses do cérebro, ajudando a parar ou desacelerar a sinalização cerebral a intervalos cruciais.
Ela faz isso absorvendo as instruções genéticas necessárias para produzir proteínas que estimulam a sinalização cerebral.
Regular esse fluxo de pulsos elétricos através do cérebro é essencial para a habilidade do cérebro de aprender e amadurecer.
Warren estava ocupado tentando recriar esse guarda de trânsito sináptico quando, graças a um conflito de agendas, ele compareceu, em 2001, à conferência científica errada e acabou se sentando ao lado de Mark F.
Bear, um professor de neurociência do MIT que havia acabado de fazer uma apresentação sobre compostos que pareciam funcionar em sinapses para acelerar a criação de proteínas - incluindo a que faltava nos pacientes de X frágil.
Os dois começaram a conversar e decidiram colaborar.
Eles descobriram que, quando Bear revertia a engenharia de seus compostos, eles pareciam desacelerar as transmissões cerebrais.
Ao invés de um guarda de trânsito, o cérebro ganharia lombadas.
Não o ideal, mas talvez adequado para reduzir o ruído sináptico o bastante para encorajar o aprendizado e a moderação do tipo de engarrafamentos sinápticos que, em crianças com X frágil, podem levar a ataques de epilepsia.
Como previsto, camundongos, peixes e moscas da fruta que, através da engenharia genética, foram criados com X frágil, pareciam se tornar normais ao receber o composto de Bear.
O composto da Novartis é membro da mesma família de drogas.
"Nós prometemos, durante muito tempo, que destravar a base molecular para doenças hereditárias levaria a enormes avanços terapêuticos, e essa promessa está finalmente se tornando realidade", disse o Dr.
Francis S.
Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, ao discutir a ciência levando ao experimento.
"Mas isso não foi fácil".
A busca por um tratamento Há cem anos, Clapp teria morrido no parto de Andy, seu filho com X frágil.
"A cabeça de Andy era grande demais para sair sem uma cesariana, ele teria me matado, e isso teria cuidado do gene do X frágil", disse ela.
Mas Clapp e Andy sobreviveram.
apesar de visitarem alguns dos melhores hospitais do país, quatro anos se passariam para que a condição de Andy fosse corretamente diagnosticada.
Quando um médico finalmente pensou em fazer um teste para o X frágil, Clapp e seu marido, o Dr.
Michael Tranfaglia - ambos formados em Harvard e com pós-graduação -, pesquisaram a doença e chegaram a duas conclusões: o X frágil era potencialmente tratável, e apenas cinco pesquisadores no mundo estavam buscando uma cura.
"Eu pensei: e se todos os cinco atravessarem a rua ao mesmo tempo e forem atropelados por um caminhão?" disse Clapp.
"Isto não nos ajudará em nada".
Então, os dois fundaram a Fundação de Pesquisa FRAXA.
Surpreendentemente, seus esforços parecem estar dando frutos, e podem finalmente oferecer esperanças não só àqueles com o X frágil, mas também aos portadores - como a irmã de Andy, Laura.
"Sempre soube que meus filhos têm chances de ter a doença", disse Laura, de 18 anos, numa recente visita à casa da família.
"Mas eu não terei filhos por pelo menos dez anos, e até lá eles já terão uma cura".
Ela fez uma pausa, olhou para sua mãe e disse: "Você tem dez anos".
Um medicamento experimental obteve sucesso num pequeno experimento clínico, ao conseguir o que os pesquisadores chamaram de melhoras substanciais nos comportamentos associados ao retardamento e autismo em pessoas com síndrome do X frágil, a causa hereditária mais comum dessas deficiências mentais.
Os surpreendentes resultados, divulgados numa recente entrevista pela Novartis, a gigante farmacêutica suíça produtora do medicamento, surgiram de três décadas de uma detalhada pesquisa genética, progressos na compreensão do funcionamento do cérebro, o apoio de famílias que se recusaram a desistir e um encontro fortuito de dois cientistas que apareceram, por engano, na mesma conferência.
"Apenas três anos atrás, eu teria dito que o retardamento mental é uma incapacidade que precisa de reabilitação, e não uma doença que precisa de medicação", afirmou o Dr.
Thomas R.
Insel, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que foi informado dos resultados da Novartis.
"Quaisquer resultados positivos de experimentos clínicos serão incrivelmente promissores".
O Dr.
Mark C.
Fishman, presidente do Instituto Novartis de Pesquisa BioMédica, alertou contra o otimismo exagerado.
O experimento envolveu somente algumas dúzias de pacientes, sendo que apenas alguns se beneficiaram do tratamento.
O remédio está provavelmente a anos de ser disponibilizado comercialmente e pode fracassar em outros experimentos clínicos, disse ele.
"Estávamos relutantes em tornar isso público, pois ainda precisamos realizar mais experimentos, fazê-los corretamente e de maneira mais ampla", disse Fishman.
"Mas nosso grupo está bem satisfeito com os dados".
Se autenticados em experimentos maiores, os resultados podem também se tornar um marco no campo da pesquisa sobre o autismo, já que os cientistas especularam que o remédio pode ajudar alguns pacientes com autismo não causado pelo X frágil - talvez se tornando o primeiro medicamento a agir sobre os sintomas principais do autismo.
Uma criança em cada 5 mil nasce com síndrome do X frágil, com efeitos mentais se estendendo de dificuldades leves no aprendizado a um retardamento tão profundo que os pacientes não falam, e efeitos físicos que incluem rostos alongados, mandíbulas proeminentes, orelhas grandes e testículos aumentados.
A síndrome afeta principalmente meninos e recebeu seu nome porque, num microscópio, um braço do cromossomo X parece quase quebrado, com parte dele pendurada por um fio.
O gene para o X frágil foi descoberto em 1991.
Desde então, trabalhos descobriram que pacientes com X frágil parecem sofrer uma sobrecarga de ruído sináptico não-verificado - sinapses sendo as junções entre neurônios.
O remédio da Novartis, e outros como ele, pretendem reduzir o volume desse ruído - para que a formação de memória e o pensamento de alto nível possam ocorrer, permitindo que as crianças se desenvolvam normalmente.
O experimento da Novartis, que teve início na Europa em 2008 e cuja análise de dados foi concluída este ano, foi breve demais para observar efeitos sobre a inteligência básica.
Em vez disso, os pesquisadores mediram uma variação de comportamentos anormais - como hiperatividade, movimentos repetitivos, isolamento social e discurso inapropriado.
Eles ministraram o medicamento a um grupo de pacientes e placebo ao outro, trocando os tratamentos após algumas semanas; tanto médicos quanto pacientes não sabiam qual pílula era qual.
Os resultados do experimento estavam um tanto confusos, até os cientistas da Novartis perceberem que os pacientes com um traço biológico característico não-divulgado melhoravam muito mais do que os outros.
"A conclusão é que apresentamos nítidas melhoras em comportamento", disse Fishman.
Sabendo dos resultados, dois pais de um paciente de X frágil ficaram eufóricos.
"Trabalhamos para isso, é isso que esperamos desde que nosso filho foi diagnosticado com X frágil, dezessete anos atrás", disse Katie Clapp, presidente e co-fundadora da Fundação de Pesquisa FRAXA, uma organização sem fins lucrativos dedicada a custear pesquisas sobre o X frágil.
"Essa pode ser a chave para solucionar o mistério do autismo e outras doenças do desenvolvimento".
Geraldine Dawson, diretora de ciência da Autism Speaks, a maior organização defensora de autismo no mundo, disse que um corpo de pesquisa cada vez maior sugere que as muitas causas genéticas do autismo parecem todas afetar as sinapses, indicando que o tratamento para uma forma da doença pode ajudar outras.
"O fato instigante desses resultados é que nós esperamos que esses mesmos medicamentos possam ter benefícios positivos similares para pessoas com autismo que não possuem a síndrome do X frágil", disse Dawson.
Entre 10 e 15% dos casos de autismo resultam da síndrome do X frágil ou outro defeito genético conhecido.
Enquanto o X frágil é a causa hereditária mais comum para retardamento mental, a síndrome de Down - que também causa retardamento - é mais comum, mas não é hereditária.
Os resultados do experimento da Novartis não foram publicados ou revisados por pares, e por razões comerciais Fishman se recusou a divulgar muitos detalhes.
O Dr.
Luca Santarelli, chefe de neurociência da Roche, confirmou que a empresa está em meio a testes de um medicamento similar, em pacientes com X frágil, em quatro lugares dos Estados Unidos.
"Até agora nós estamos gostando do que vemos", disse Santarelli em sua única caracterização do estudo.
Uma razão para a euforia envolvendo o experimento da Novartis é que ele foi visto como um teste especialmente difícil dos efeitos do medicamento.
Por motivos éticos, a Novartis testou a droga somente em adultos.
Porém, a empresa e pesquisadores de fora acreditam que tais compostos podem se mostrar mais eficientes em crianças jovens, cujos cérebros têm probabilidades muito maiores de responder rapidamente quando as barreiras ao aprendizado são removidas.
"Este é talvez a descoberta terapêutica mais promissora para uma doença comportamental baseada em genes", afirmou o Dr.
Edward M.
Scolnick, ex-chefe de pesquisa da Merck e atual diretor do Centro Stanley de Pesquisa Psiquiátrica no Broad Institute, em Harvard, e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Scolnick não viu os resultados do experimento da Novartis, mas ficou sabendo deles e concluiu que, se as drogas funcionam no X frágil, "não há como dizer que elas não funcionarão em alguns casos de doenças num espectro mais amplo de autismo".
As raízes para os resultados da Novartis começaram em 1982, quando Stephen T.
Warren, então um estudante de graduação em genética da Universidade Estadual de Michigan, procurava um emprego e algo o que pesquisar.
Um amigo lhe contou a respeito do X frágil e, com a mesma reflexão que utilizava para escolher um livro para um voo longo, ele decidiu que queria encontrar o gene que causava a síndrome.
"Eu não fazia ideia do quanto isso seria difícil", contou Warren.
Nove anos depois, Warren, então na Universidade Emory, fazia parte de uma equipe internacional que venceu uma concorrida competição isolando o gene.
A descoberta foi noticiada em primeiras páginas do mundo todo, e especialistas previram que amplos testes e terapias fetais estavam à vista.
As previsões foram prematuras, pois, como a maior parte das pesquisas genéticas, descobrir como o gene defeituoso causava a doença era muito mais difícil do que se havia imaginado, e exigia múltiplos saltos em neurologia e biologia.
E mesmo com isso, grande parte permanecia um mistério.
O X frágil é causado por um gaguejar genético, no qual uma parte do gene é repetida como um disco riscado.
Em cada uma das gerações subsequentes, o número de repetições tende a aumentar.
Então, se uma mãe possui 10 repetições, seu filho pode ter 11 ou 12.
Por razões ainda não bem compreendidas, entretanto, esse processo de amplificação repetida pode ficar subitamente desordenado.
Assim, mães que possuem 55 ou mais repetições tendem a ter filhos com centenas.
Em qualquer pessoa com 200 ou mais repetições, o corpo desliga o gene.
Como os genes são usados para produzir proteínas, essa paralisação genética significa que a proteína codificada nunca será produzida.
A ausência dessa proteína nas células causa os efeitos de amplo alcance da síndrome do X frágil.
Aqueles com 55 a 200 repetições são considerados portadores, e pesquisas recentes mostram que eles podem apresentar graves declínios neurológicos com a idade - algo como Alzheimer e Parkinson.
Após encontrar o gene fundamental de uma doença, muitos geneticistas teriam partido para outros tópicos de pesquisa.
Warren, porém, conheceu crianças afetadas e seus pais.
Em vez de fotos de família, a mesa de Warren exibe uma foto emoldurada de um cromossomo X frágil.
"Eu não poderia dizer a alguém como Katie Clapp que não iríamos mais seguir com essa pesquisa", disse ele.
Assim, ele continuou.
Anos de trabalho, por ele e por outros, mostraram que a proteína faltando naqueles com X frágil normalmente parece agir como um tipo de guarda de trânsito em sinapses do cérebro, ajudando a parar ou desacelerar a sinalização cerebral a intervalos cruciais.
Ela faz isso absorvendo as instruções genéticas necessárias para produzir proteínas que estimulam a sinalização cerebral.
Regular esse fluxo de pulsos elétricos através do cérebro é essencial para a habilidade do cérebro de aprender e amadurecer.
Warren estava ocupado tentando recriar esse guarda de trânsito sináptico quando, graças a um conflito de agendas, ele compareceu, em 2001, à conferência científica errada e acabou se sentando ao lado de Mark F.
Bear, um professor de neurociência do MIT que havia acabado de fazer uma apresentação sobre compostos que pareciam funcionar em sinapses para acelerar a criação de proteínas - incluindo a que faltava nos pacientes de X frágil.
Os dois começaram a conversar e decidiram colaborar.
Eles descobriram que, quando Bear revertia a engenharia de seus compostos, eles pareciam desacelerar as transmissões cerebrais.
Ao invés de um guarda de trânsito, o cérebro ganharia lombadas.
Não o ideal, mas talvez adequado para reduzir o ruído sináptico o bastante para encorajar o aprendizado e a moderação do tipo de engarrafamentos sinápticos que, em crianças com X frágil, podem levar a ataques de epilepsia.
Como previsto, camundongos, peixes e moscas da fruta que, através da engenharia genética, foram criados com X frágil, pareciam se tornar normais ao receber o composto de Bear.
O composto da Novartis é membro da mesma família de drogas.
"Nós prometemos, durante muito tempo, que destravar a base molecular para doenças hereditárias levaria a enormes avanços terapêuticos, e essa promessa está finalmente se tornando realidade", disse o Dr.
Francis S.
Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, ao discutir a ciência levando ao experimento.
"Mas isso não foi fácil".
A busca por um tratamento Há cem anos, Clapp teria morrido no parto de Andy, seu filho com X frágil.
"A cabeça de Andy era grande demais para sair sem uma cesariana, ele teria me matado, e isso teria cuidado do gene do X frágil", disse ela.
Mas Clapp e Andy sobreviveram.
apesar de visitarem alguns dos melhores hospitais do país, quatro anos se passariam para que a condição de Andy fosse corretamente diagnosticada.
Quando um médico finalmente pensou em fazer um teste para o X frágil, Clapp e seu marido, o Dr.
Michael Tranfaglia - ambos formados em Harvard e com pós-graduação -, pesquisaram a doença e chegaram a duas conclusões: o X frágil era potencialmente tratável, e apenas cinco pesquisadores no mundo estavam buscando uma cura.
"Eu pensei: e se todos os cinco atravessarem a rua ao mesmo tempo e forem atropelados por um caminhão?" disse Clapp.
"Isto não nos ajudará em nada".
Então, os dois fundaram a Fundação de Pesquisa FRAXA.
Surpreendentemente, seus esforços parecem estar dando frutos, e podem finalmente oferecer esperanças não só àqueles com o X frágil, mas também aos portadores - como a irmã de Andy, Laura.
"Sempre soube que meus filhos têm chances de ter a doença", disse Laura, de 18 anos, numa recente visita à casa da família.
"Mas eu não terei filhos por pelo menos dez anos, e até lá eles já terão uma cura".
Ela fez uma pausa, olhou para sua mãe e disse: "Você tem dez anos".
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